Um show de rock tem a capacidade de fazer com que a primeira mensagem do dia seja do Paulinho da borracharia, trazendo a sensação de ser um amigo de décadas, mesmo sem lembrar do rosto do mano.
Um show de hardcore tem a capacidade de unir a doidera, o desabafo, a curtição, a maldade, a libertação… tudo em prol de uma menina de 12 anos querendo entrar no bate-cabeça, com seu pai incentivando, só que ela, com medo por ser apenas uma criança. O show de hardcore deixa o diálogo aberto e se torna viral, ignorando a catarse de cada pessoa de camiseta preta ali, para o pai pôr a filha nos ombros e entrar no bate sem que eles sejam tocados por ninguém, com ambos quase saindo da roda e alguns ali gritando: — Espera, espera… Volta à normalidade, à conduta. Quem for cair a gente tenta segurar, quem cair a gente levanta e como o pai e a filha, quem estiver no chão a gente protege, perguntando se está tudo bem; e sempre está.
Um show de rock traz pessoas que você conhece e não lembra o nome, ou que você não sabe o nome e nem quem são, só que lhe chamam pelos apelidos, alguns que nem você lembrava; Ou chamam pelo nome, dando aquela sensação de estranheza que temos quando falamos nosso próprio nome e os ouvidos percebem o tom da voz. ( Talvez você não ache estranho, eu acho.)
Em um show de rock tem pessoas que não envelhecem e pessoas que parecem muito mais velhas, apesar de terem a mesma idade que a sua. Pessoas que têm uma família e pessoas que já casaram mais de uma vez — e tudo bem, é a vida.
Um show de hardcore não pode ter briga; diante de qualquer desavença, é orgânico que os amigos de fora apaziguem e logo, a treta vira desculpa e abraço, cantando alto com os braços esticados em direção à banda. Um show de hardcore traz a bondade de você pedir um gole d’água e ganhar a garrafa, de não pedir cerveja e uma lata aparecer na sua mão. De perder o tênis, a carteira, o celular, a chave do carro e quase instantaneamente um desconhecido de camiseta preta devolver a vibe porque encontrou.
Um show de hardcore tem a capacidade de suprir erros técnicos quando a banda para de tocar e geral aguarda, espera, canta a capela. Ansiedade no show de rock é ter certeza de que a próxima música é a que você foi para ouvir — e a próxima acaba sendo a música que você foi para ouvir, e a próxima, e a próxima, e a próxima.
Um show de hardcore traz a unidade que a humanidade precisa e nunca irá alcançar. Um show de hardcore acolhe as diferenças, as loucuras e só chama para conversar quando alguém não sabe a conduta que um show de hardcore tem: — Vem cá, vamos trocar uma ideia.
Posso esquecer desse show de hardcore como inúmeros que fui e não lembro. Mas não vou esquecer a menina de 12 anos no ombro do pai rockeiro e geral no bate, a cena, ajudando ela a perder o medo. A menina, a criança, irá lembrar desse momento quando sentir medo de novo.
As camisetas pretas têm o poder de absorver todas as cores dos problemas que não esquecemos e cantando, jogamos para fora todas as cores que temos dentro e que às vezes, esquecemos.
Como diria a letra da Zander:
“Estamos de partida e nunca é fácil dizer, até a próxima, foi bom te ver…
O cheiro de cigarro e a roupa suja do suor de ontem
vão dizer que é tudo pra valer…
E se eu pudesse te levar pra te mostrar o que me faz, testar limites do meu corpo e não pensar em nada mais. A se eu pudesse te levar e te mostrar o que me faz…
O gosto é de cachaça, ao menos foi de graça e eu não me lembro ao certo quem ofereceu.
Contar de novo as falhas, a gente ontem se esqueceu, o prejuízo e a felicidade vão dizer que é tudo pra valer.”
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